Saturday, March 19, 2005

Trote na USP

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1903200503.htm

Se há uma instituição que deveria, por sua própria natureza, combater sem tréguas toda forma de ritual primitivo prejudicial a indivíduos, ela é a universidade. Nesse contexto, surpreende a persistência dos trotes aos calouros, uma modalidade totalmente anacrônica e inaceitável de receber os primeiranistas.
Nesta semana, calouros da Faculdade de Direito da USP foram submetidos a trote violento. Veteranos compeliram ingressantes a beber cachaça e a ingerir pimenta e os forçaram a tomar banho no chafariz da praça da Sé. Embora o episódio não tenha tido conseqüências trágicas, como o trote na Faculdade de Medicina da USP em 1999, que resultou na morte do estudante Edison Hsueh, ele é inadmissível. Não se pode apenas por capricho constranger alguém a fazer o que não deseja. E parece especialmente impróprio que estudantes de direito se dediquem a ferir direitos de colegas estudantes.
Não se contesta, é claro, que os alunos que entram devam ser recepcionados pelos que já estão no curso. É importante, porém, que sejam tratados dentro dos limites da dignidade e do respeito. Os calouros têm exatamente os mesmos direitos que seus colegas mais velhos.
Também impressiona a forma como o instituto do trote violento resiste às tentativas para erradicá-lo. Após a tragédia de 1999, autoridades universitárias redobraram, pelo menos retoricamente, seus esforços para cercear a violência. A Assembléia Legislativa paulista chegou a aprovar lei proscrevendo a prática. Ainda assim, por vezes, ela reaparece.
É preciso, pois, insistir com mais ênfase na repressão a esse hábito. O trote humilhante e violento representa algo que uma universidade comprometida com o primado da razão tem obrigação de combater.
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