Monday, March 07, 2005

"Mar Adentro"

"Mar Adentro" é um belíssimo filme que não poderia passar sem um registro enquanto a memória dele está fresca. Devo listá-lo entre os que mais me emocionaram e acredito que a maior parte da platéia teve os seus olhos molhados em diversos momentos do filme.

O longa trata fundamentalmente da questão da eutanásia (no caso a ativa, que é provacada por uma ação), em que o protagonista Rámon, depois de passar mais de duas décadas vivendo - ou não vivendo, como ele diria - em uma cama, resolve ter uma morte digita, legalmente autorizada pelo governo do seu país, a Espanha. Ao longo dessa luta jurídica, o diretor mostra-nos, brilhantemente, a vida de Rámon no sio da sua família, sendo amparado, com muito amor pela sua cunhada, sobrinho e amigos diversos que ele ainda mantém, mesmo com a sua vida reclusa. Ele recusa a aceitar-se como um tretaplégico e, por isso, não sai da cama, sendo que obviamente todos os cuidados são tomados para evitar consequências da sua permanência por muito tempo na mesma posição.

Por esse motivo, boa parte da história passa-se no seu quarto, com lindas lembranças e "viagens" do protagonista. Essas viagens levam-no, votando na sua imaginação, ao encontro do mar, que o marcou - desde a época em que era marinheiro até quando quebrou o pescoço em um mergulho distraído, além de levá-lo ao encontro de situações que desejava viver (como quando se apaixona pela advogada Júlia). É ela que, voluntariamente lidera a busca de Rámon pela sua liberdade de não mais usufruir do seu direito - a sociedade trata como um dever - de vida. Surpreendentemente, mas não por acaso, Júlia sofre de uma doença degenerativa que a coloca em uma situação (ou pelo menos na perspectiva de uma situação) parecida com a de Rámon. Ao coletar informações sobre o seu cliente, ela ajuda a conduzir a história de Rámon e a nos sensibilizar fortemente em todo esse processo.

Com um papel forte na história, Rosa, uma operária de fábrica, aprender a amar e descobre melhor o que é o amor através do seu contato com Rámon. Eles iniciam esse relacionamento de amizade (por parte dele) e amor (por parte dela) através da curiosidade de conhecê-lo ao vê-lo na TV.

O filme mostra muitas facetas de uma situação dessas:
  • A sociedade e pessoas próximas (como o irmão de Rámon) que, numa atitude ou impensada ou egoísta, não aceita a possibilidade da eutanásia. O lado egoísta manifesta-se no medo de perder a pessoa, sem enxergar o desejo dela. O lado da sociedade - completamente estúpida - é que a pessoa não tem direito ao corpo e que a sua vida não é de fato sua, mas de Deus ou de alguém outro. A conversa entre Rámon e o padre tetraplégico deixa isso muito claro.

  • Pessoas que não aceitam esse fato mas que, ao conhecerem melhor a situação e aprenderem a gostar de Rámon, mudam de idéia e o apóiam.

  • Pessoas que aceitam desde o início a sua vontade, como a sua cunhada e amigos.
O tema morte nunca é muito resolvido e não sabemos lidar muito bem com ele, em particular quando uma pessoa deseja antecipá-la. Não deveria ser tão impressionante já que todos encontrá-la-ão.

Uma das grandes facetas do filme também acontece com relação à Júlia. ela deseja, assim que sabe da gravidade da sua doença degenerativa, encerrar a sua vida ajudando primeiramente Rámon nesse intento. Ela sabia que não teria uma vida digna num futuro próximo caso as expectativas se confirmassem. Entretanto, quando chegou o momento marcado com Rámon - da publicação do seu livro de poesias com o intuito de ajudar na sua causa - ela desiste enviando uma carta a Rámon. Mais para o final do filme mostram-na em uma situação em que não se recorda mais de Rámon, em função da sua doença. Claramente esse fato, entre outros, mostram-na sofrendo as consequências de ter escolhido a continuidade da sua vida.

Muito boa sacada no filme foi a colocação do contraponto da morte, o nascimento de uma nova vida, cheia de alegria e furor. Os dois sempre convivem juntos (e durante o filme a história do nascimento acontece em paralelo) e um, na verdade, é continuação do outro.

Por fim, com a ajuda de Rosa, Rámon prepara o momento da sua morte, previsa pelos familiares no momento da sua mudança de casa. Os amigos, um a um, com a contribuição de pequenas doses de cianureto de potássio, auxiliam-no na montagem do líquido que o liberará do sofrimento.

O filme se desenrola na Galícia e é curiosíssimo o espanhol deles repleto de influência portuguesas.

A história é linda e artisticamente muito bem trabalhada pelos atores e pelo seu diretor. Um filme brilhante que, apesar de eu não conhecer os demais concorrentes seus para o Oscar de melhor filme estrangeiro, mostrou-se a altura de um grande prêmio.
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