Sunday, February 13, 2005

Os manos e os "pixos"....

Para qualquer paulistano que anda um pouco pelas ruas, não é de se espantar se você eventualmente encontrar um pichador em ação. Eu já tive esse tipo de experiência à noite, mas hoje foi a primeira (e não acredito que será a última) vez que encontrei pichadores em ação ao meio-dia. O alvo: uma loja de peças automotivas com a suas portas de ferro já um pouco antigas mas ainda ilesas a ação dos pichadores (ou talvez já pintada inúmeras vezes para manter um aspecto mais agradável para o comércio). Sem o menor medo, lentamente e com todo o seu cuidado, o pichador escreve os sinais do seu grupo (veja aqui o pequeno número de grupos de pichadores em SP) ou até das iniciais do seu nome na porta. De costas para o estabelecimento, o seu comparsa analisa o público que está a passar pelas calçadas e que olha para esse fato com a maior naturalidade. Provavelmente estão armados ou pelo menos estão preparados para uma bela corrida se enxergarem perigo (policiais ou populares revoltados). O público que assiste de camarote a essa cena talvez não enxergue o fato de ser mais um lugar feio numa cidade tão feia e mal-cuidade quanto São Paulo, mas apenas que deixará de ser destoante por não estar no padrão esperado de pichação ("opa, agora todos na rua estão pichados, nada foge do padrão"). Eu mesmo passo, e confesso, ainda espantado em ver aquela cinea, mas poucos segundos depois os pichadores vão embora na maior naturalidade.

Hoje existem milhares de grupos de pichadores, até são organizados em web sites (veja um deles aqui). Se você quiser iniciar na arte, até tem dicas lá de como usar a sua lata de spray (mas obviamente não o estou encorajando nesse blog). Fotos de toda a arte dos pichadores podem ser vistas em viadutos (link1, link2), prédios (link) e outros. Sim, é feio, mas com orgulho, foram eles que fizeram. Inversão de valores?

Os pichadores até mesmo se mostram sem o menor receio, como se pode observar em blogs diversos (veja aqui um deles). O orgulho de ter sujado uma avenida importante da sua cidade deve fazê-lo ganhar a semana. E por que não divulgar a sua marca e discutir assuntos relacionados em fóruns a respeito? É muito falta de noção ou não se tem o menor carinho pelo lugar onde se vive. Espantar-me-ei se encontrar a casa deles bem organizada, e bonita.

Parece que é praticamente impossível diminuir essa prática. Por experiências já ouvidas, a polícia dá menor atenção a esse tipo de delito por se tratar de algo de menor importância já que assuntos supostamente mais sérios ainda estão sendo combatidos e, mesmo que alguns digam com algum sucesso, ainda está bem longe de atingirmos níveis em que a violência não se torne uma das primeiras preocupações de cidadãos de metrópoles como São Paulo.

Jurificamente, como é dito no artigo A Triste Cultura da Pichação do juiz Antonio dos Santos, a pichação é um crime ambiental considerado grave, como podemos ver no seguinte trecho do artigo:

"Juridicamente pichar, grafitar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano é crime ambiental nos termos do art. 65, da Lei 9.605/98, com pena de detenção de 3 meses a um ano, e multa. Se o ato for realizado em monumento ou coisa tombada por seu valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena passa a ser de 6 meses a um ano, e multa (§ único). Porém, a mera existência de legislação punitiva não é suficiente para inibir estes atos, devendo existir do Poder Público vontade política de inibir a prática delituosa. Cabe ao Município exercer a sua autoridade administrativa e garantir o desenvolvimento urbano, garantindo ainda o bem estar de seus habitantes (art. 182, Constituição Federal), sob pena de seus agentes responderem pelo crime ambiental de responsabilidade por deixarem de adotar as providências que lhes compete na tutela ambiental (art. 68, Lei 9.605/98, Crimes Ambientais). Além disso, todos os cidadãos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (art. 225, CF), no que se inclui o meio ambiente urbano com suas características harmônicas e estéticas."

Ou seja, por menor que seja a consideração de algumas partes, é algo que deveria ser combatido, mas a menos que os pichadores se convençam dos efeitos do seu ato, não vamos sanar. Talvez consigamos mudar um pouco pela educação, tentando exibir para as crianças o quão prejudicial a cidade é essa prática (e olha que não é preciso enxergar muito longe para pensar em turismo, sem dizer outros aspectos) e a razão pela qual é considerado um crime. Será que é tão difícil ver que ambientes esteticamente mais agradáveis são melhores para se viver(*). De qualquer forma, felizmente não são todas as pessoas que passam os olhos por esse assunto. O subprefeito do bairro do Ipiranga, por exemplo, estabeleceu como uma das principais metas combater a pichação, que tem dimensões enormes no seu bairro. Felizmente ainda não picharam o museu do Ipiranga, mas nem devemos comentar muito para não dar a idéia.

(*) Experiências de pessoas em outros países onde se tem uma grande comunidade de brasileiros mostram que, mesmo numa bela cidade, muitos brasileiros continuam a sua prática pichando, entre outros, muros e prédios, inclusive com textos em português...
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